Queria mais que seu corpo

Onde estava, me escondia
Na realidade, que era fantasia
De um sorriso, que sempre doía
No rosto marcado por uma agonia,
Trazida até mim pela falsa alegria
De quem estava, mas não convivia
No mesmo espaço, sem sintonia
Sendo frio, enquanto eu ardia
No momento em que te satisfazia
Vendo minha vida ficar vazia,
Achando que ninguém trocaria
Um coração por uma orgia.
Mas a verdade é que eu sabia
Que nenhum sexo mudaria
A felicidade que você traria
Se soubesse que o amor existia.
Mas ninguém tem essa garantia
E por enquanto é só simpatia
Mútua, e quem julgar poderia
Essa sua constante heresia
De pecar sem culpa?

Irrelevante

Vivos, moribundos,
ausentes e sem onde
estamos por estar
caminhando na esteira
translúcidos
não nos enxergamos
escuros
nos identificamos
gritamos, vazios
e de tristeza cheios
não transbordamos
só rimos.
Perseguidos
pelos ponteiros
nos atrasamos
pra vida que nos espera
pontual.
Alimentados
do puro orgânico
nos desnutrimos.
Formados
em teorias copiadas
não evoluímos
informados
por poucas linhas,
desconhecemos.
Mortos, sem ação,
presenciamos
o fim de nada.

Leandro Pedrosa

Espelho, espelho meu?

Em nenhum reflexo

vi essas mudanças

acho que elas acontecem

quando não olhamos

por estarmos distraídos

olhando-nos em outros

espelhos emoldurados

porém frágeis e sujos

Hoje me vejo, assim

com um espectro

diante de mim

pois quebrou-se o espelho

e entre os cacos encontrei

minhas formas vivas,

intactas.

Leandro Pedrosa

Quarentena

Ao meio-dia nesta ilha tento exteriorizar
Pensamentos de forma coesa e satisfatória,
Mas de fato é frustrante alcançar esta vitória
Já que numa grande redoma eu pareço estar.

Sei que fechado sempre estive, tendo as chaves
Do auto cárcere sempre ao alcance das mãos,
Só que este isolamento opressivo entre irmãos
Me faz querer abusar da liberdade, como as aves.

Mas há muitos que não conseguem se libertar
Tem seus voos interrompidos, asas cortadas
Por algo que nem conseguimos ver ou tocar

E é por estes que retenho meus passos agora
Andando apenas por estas palavras veladas
Inseguras, enquanto minha respiração se limitar.

Leandro Pedrosa

Pra todos os efeitos, eu não sei onde está o tempo

Todas as manhãs eram como água dentro de bacia. Imutáveis, estáticas e limitadas. Acordar não adiantava nada se o mundo parecia estar dormindo um sono profundo, porém inquieto. A impressão era a de que o maior movimento que se podia fazer durante o dia era abrir os olhos só pra ativar o funcionamento de todo o resto. Como acender uma luz numa sala escura. Só acender. Então tudo permanece no mesmo lugar. Só o pensamento flutuando pelo espaço, indo e voltando, subindo e descendo. Às vezes tomando forma e escapando antes que virasse objeto e engolisse um pedaço do tempo. Não se pode perder um pensamento com a concretude humana, pois pensar vem antes e depois ainda fica, não por nós, mas por si próprio. Se fôssemos tão autônomos quanto nossos pensamentos também seríamos eternos.

Olhou-se no espelho e viu um pouco menos do que antes, pois ultimamente não tem acompanhado o passar dos dias ativamente. Parou de marcar X no calendário. Achando que deu uma pausa. Mas o tempo é persistente e sério, não nos espera na esquina enquanto nos banhamos, comemos e vestimos a melhor roupa. O tempo sempre estava no trabalho antes que chegasse lá e já havia voltado para sua casa antes que tivesse saído do trabalho. Mas agora que estava sempre em casa, onde estava o tempo? Será que havia saído e voltado sem que tivesse percebido? Sorriu com a ideia de estar ali antes do tempo voltar. Mas lembrou-se que ele poderia estar ali, lhe fazendo companhia. Perseguidor sádico. Esfria o café olhando o noticiário. Revira os olhos quando se dá conta de que pode primeiro esfriar o café, bebê-lo e só depois assistir o jornal. Já que é sempre a mesma coisa. O café também. Amanhã irá tomar com leite pra variar.

Daqui a pouco, à tarde, quando o nada já tiver ocupado um terço do seu dia e ainda estiver ocupando os dias dos vizinhos, da rua, do bairro, do país, do mundo, esparrama-se no sofá como se deslizasse pra uma terceira dimensão ainda não afetada. Afetada pelo quê? Procura nos sites, tuítes, nunca passando da primeira frase. Só tem interesse no fim. No fim de quê? Quando disserem, “pode voltar ao normal”. Que normal? Aquilo não era nada normal, viver como se não existissem outras maneiras. Dizem que vivemos outras vidas, em outro tempo e outro espaço. Queria saber como eram essas outras existências. Fingir não bastava. Era necessário tomar banho hoje?

Na TV coloca um filme, com uma sinopse chamativa e alta porcentagem de aceitação. O mocinho encontra a mocinha, perde a mocinha e no final a reencontra. Fim. Cinco horas da tarde. A pior invenção de todas. Levanta-se e vai até a cozinha preparar o almoço. Ou janta? A refeição. Come tentando sentir o sabor mas só sente gosto de comida. Assim é a vida, pensa. Ou pelo menos está sendo. Volta para o quarto, se sentindo invisível aos olhos de alguma presença no resto da casa. Culpa talvez? Abre a rede social e posta uma foto deitado com a legenda “me tirem do tédio”. A tal presença deve ter rido lá na sala. Quem mais pode lhe tirar do tédio? Joga o celular pra longe e fica olhando pro teto branco. Já tentou ser produtivo antes. Mas por que e pra quem? Começa a querer se esvaziar até ficar branco como o teto, mas permanece confuso. O não entendimento precede o pânico de entender algo, como se tivesse tocado na água da bacia. Assusta-se. Quer derramar a água mas tem medo de não mais se ver, mesmo que parado. Então não é só enchê-la de novo? Não é a mesma coisa.

Isso o faz lembrar que o amanhã está chegando, já se transformando no hoje que logo se apagará. Mas não há muita coisa pra ser esquecida. Nem o filme vale a pena ficar na memória. Só fez engolir um pedaço do tempo. Onde poderia ter usado esse pedaço, não sabe. É injusto, diz pra si. O tempo saber o que fazer com a gente, e nós não sabermos o que fazer com ele. Porque não há nada a fazer com ele, a não ser tentar, tolamente, acompanhá-lo através de números, ordem, desejos, gastos e tudo que agora não faz tanta falta como o ar livre. O tempo só não persegue aqueles que não conseguem escapar, ou nem puderam. Esses não precisam mais se preocupar com o preenchimento dos dias.

Resolve dormir, pra ver se consegue de alguma forma escapar, quem sabe encontrar a alternativa que falta aqui no que chamamos de realidade. Quem sabe o tempo não consiga transpor os limites da mente e apenas exista fora dela. Por isso sonha, e resolve que no dia seguinte sonhará acordado também, e só então será como se não estivesse em casa, no trabalho, ou em qualquer lugar em que o tempo esteja. Sem tempo, sem preocupações.

Muso Ingênuo

Você hoje me inspirou sem querer,
Só em viver já me deu motivos pra escrever.
Uso e abuso da sua existência, pra valer,
Me alimenta sendo, sem sequer saber…

Desconheces tua superioridade em meu coração,
Já foi Rei, imperador, e agora ladrão
Porque só quem pega sem pedir de antemão
Sabe que o amor permite que se livre da prisão.

Já me sinto dependente dessa tua alma,
Que em pequenas doses me desfibrila,
E nem posso pedir doses altas.
J’aime ton aura, não posso inibi-la.

Sou a cera da tua chama, me queime a vontade.
Não ligo pra Camões, quero ver esse amor que arde,
Só não podes ter conhecimento meu muso,
Dessa subordinação covarde.

@1toquedeliteratura

Coautores

Se é verdade que, após muitos rabiscos
E muitas páginas arrancadas num rompante,
Aperfeiçoamos o estilo, evitando riscos,
Por que voltamos a escrever de modo errante?

Serão os erros uma constante lembrança
De que jamais seremos grandes escritores
Ou de que nenhuma inventada esperança
Nos leve a ser, da vida, os próprios autores?

Em algum momento nossa história parece
Fazer sentido, e até lida de forma fluida
Por leitores que buscam uma grande emoção.

Mas disto nossa trama atualmente carece
Pois o que escrevemos de fato não cuida
De expor nossa real e linda ficção.

Leandro Pedrosa

Oposição

Desejo um dia sair às ruas pelado
E fazer com que os outros tenham
Vergonha de andar vestidos.
(Mal vestidos, diga-se de passagem).

Uniformes que disfarçam as formas disformes,
Reforçando a igualdade dos iguais,
Não servem no meu corpo extraterrestre,
Que se recusa a ser colonizado por robôs.

Eu busco o contrário do contrário,
A dúvida que ninguém quer tirar,
A palavra que ninguém quer escrever
Ou tem medo de pronunciar.

Quero ser o cata-vento que gira
Na direção contrária dos costumes,
O pingo de chuva que se nega a cair
Numa tempestade que não molha.

Um cérebro mais sensual que um corpo
E mais desejado que uma parte deste,
O antônimo de qualquer sinônimo de esperado,
A moda tomada como ridícula
Sob o pensamento jamais refutado.

Eu quero, caro leitor, viajar pra onde
Não há caminho, nem destino a se fotografar.
Levar na mala o que ninguém usa;
A minha visão e meu jeito incerto de caminhar.

Única condição pra ser feliz

antes da felicidade
quero encontrar-me
pois agora estou perdido

e de nada adianta
dar de cara com a felicidade
se não souber quem eu sou

seria o mesmo que ganhar
uma passagem direta
para o Paraíso sem saber o porquê.
(E quem não acredita em Paraíso?)

é o conhecimento do que somos
que nos torna valiosos e merecedores
do próprio autoconhecimento

mesmo que eu soubesse falar
todas as línguas do mundo
sem me conhecer, eu nada seria

de que adianta me comunicar com tantos
e ficar mudo diante de mim mesmo?
que vergonha não ter argumentos pra mim.

mas eu posso me ensinar, me reeducar
mostrar pra mim o significado das palavras
para depois reinventá-las, ressignificá-las

sem que ninguém tenha me dito
me tornando um autodidata
dos sentimentos, das emoções,
dos prazeres e até das intuições

sendo eu mesmo meu próprio gênio
que se liberta da lâmpada, realizando
seus próprios desejos

e só então, poderei estar diante
da felicidade, de igual pra igual
como se fosse ela própria

serei então A felicidade
não resumida, não distorcida
longe de qualquer subordinação

pois quem busca a si mesmo
jamais se perde, nem se aprisiona
só ganha a liberdade, que eu
também chamo de felicidade.

Como pequenas estórias

Me sinto deslocado aqui
Sem saber se faço parte
De alguma categoria que não existe
E que quando, talvez, existir
Eu não exista mais.
Então essa categoria será qualquer coisa
Menos eu. Inacabada.
Categorias inacabadas tendem a virar
Estórias que inspiram a busca
Pela completude, que não chega
Porque eu não estarei aqui, nem você
Nem nossos nomes, nem nossos pensamentos
Pois nossa ausência será notada.
Não “nossa” ausência de fato, mas
Essa alguma coisa que nós somos
E nunca descobrimos em vida,
Já que estamos ocupados tentando ser algo,
De algum lugar, para alguém
E de qualquer maneira buscamos
Definições pra depois cuspi-las dizendo
“Sou assim mesmo, um ser incompleto”
Que se define como indefinível,
Não compreensível, inacabado
Igual à categoria que procura.
Assim entramos nas estórias
Mas não pra História, pois esta requer
Inícios, meios e fins
E estamos sempre no meio
Não começamos nada, nem terminamos.
Nem criações, nem legados,
Nem revoluções, nem guerras,
Nem metamorfoses, nem ditaduras.
A gente sempre chega quando já começou
E sempre sai antes de terminar.
Nem pra trás, nem pra frente
Um crescimento estático, reverso talvez?
Pois, então somos todos assintomáticos
E ninguém aparenta nada aos olhos de ninguém.
Todos suspeitos de carregar o verme mais
Nocivo à saúde da roda que gira e gira
E gira até que chega nossa vez de subir e
Descer e subir e descer e subir e tentar
Ficar lá no alto e cair com um chute.
Mas até quem já está embaixo é empurrado
Porque a roda precisa girar e girar e girar
De novo, com outros ocupantes, também
Não cabíveis, incompletos e sedentos
Por um lugarzinho mínimo na História
Numa categoriazinha qualquer, porém
A roda raramente permitirá isso
Fazendo com que sejamos sempre um monte
De inspirações que levam nada a lugar nenhum,
Um monte de estórias inacabadas.

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